Lenda dos Warriors, Wilt Chamberlain quase enfrentou Muhammad Ali no boxe
Em 1971, uma reunião tensa no Astrodome, um estádio fechado em Houston, no Texas, quase terminou com o anúncio oficial da luta entre a lenda do boxe Muhammad Ali e o gigante do basquete profissional Wilt Chamberlain.
No entanto, por conta de uma provocação de Ali, tudo desandou.
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Como surgiu a ideia da luta entre Wilt Chamberlain e Muhammad Ali?
A ideia surgiu bem no início da década de 1970, patrocinada pelo ex-advogado do Departamento de Justiça dos Estados Unidos que se tornou promotor de boxe, Bob Arum, pelo empresário de Ali, Herbert Muhammad, e pelo próprio Chamberlain.

Antes do dia da reunião, o advogado de Chamberlain já havia lido e aprovado um contrato da luta. Estava quase tudo pronto. Wilt, que decidiu esperar mais um pouco antes de assinar o documento, concordou em ir para Houston, fazer uma coletiva de imprensa, discutir os últimos detalhes e finalmente oficializar o duelo.
Buscando garantir que tudo ocorreria conforme o esperado, Arum chamou Ali de canto e fez um único pedido.
“Avisei Ali que ele não deveria fazer nada para atrapalhar o gigante, pelo menos até que Wilt assinasse o contrato”, relembra ele, em uma memória no Las Vegas Sun.
Não houve jeito.
“Incapaz de se controlar, Ali gritou: ‘Timber! A árvore vai cair.”, continua Arum. “Wilt Chamberlain e seu advogado se retiraram, foram para a sala ao lado e ligaram para Cooke em Los Angeles, concordando rapidamente com os termos do contrato de basquete e, assim, encerrando a carreira de boxe profissional de Chamberlain antes mesmo de começar”.
O que estava em jogo no duelo Wilt Chamberlain vs Muhammad Ali?
A possibilidade do duelo chamou bastante atenção porque reunia vários interesses.
Na época, Ali já era um ídolo do boxe conhecido pelos seus nocautes implacáveis, chamado por muitos de o maior lutador da história, e queria se destacar no chamado boxe de entretenimento – categoria marcada por grandes espetáculos dentro do ringue.
Já Wilt Chamberlain, conhecido pela competitividade e ambição, era uma estrela do basquete que colecionava um recorde de 100 pontos marcados em um único jogo, um troféu de campeão da NBA e vários prêmios de MVP. Buscando novas oportunidades, viu no boxe uma possibilidade de ascensão.
Além disso, a luta seria muito lucrativa: notícias da época e depoimentos dos atletas citam uma possível arrecadação de 5 milhões de dólares.
A imprensa também se debruçou bastante sobre o caso. Representantes da ABC/Wild World of Sports estavam interessados em fazer um grande evento. O jornalista esportivo Howard Cosell, da ABC, chegou a levar ambos os atletas para seu programa. Durante a transmissão, ele mediu o alcance dos braços de ambos os atletas e comparou o tamanho das mãos como parte da preparação do espetáculo.
A transmissão foi cheia de provocações.
“Você tem que admitir que as mãos deles são maiores até que as do Sonny Liston”, disse Cosell, em referência ao famoso pugilista norte-americano. “Isso não significa nada. Esse homem não tem nenhuma chance contra mim”, respondeu Ali.
“E é melhor você fazer essa barba, porque eu não vou lutar contra um bode”, continuou o campeão mundial em outro momento, apontando para o cavanhaque do ídolo da NBA.
Quem teria levado a luta?
Um grande dilema envolvendo o duelo que nunca ocorreu é quem teria ganhado a luta. Embora seja impossível prever exatamente o resultado final, é possível especular.
As vantagens de Ali eram óbvias: ele era um boxeador profissional, com uma velocidade incrível, uma força descomunal e um trabalho de pés invejável.
Apesar disso, ele estava em um momento difícil: em 1968, Ali recusou servir nas forças armadas e acabou sendo proibido de lutar boxe profissionalmente pela decisão, o que afetou sua renda e rotina de lutador.
Quando voltou a lutar, no início da década de 1970, Ali ganhou duas lutas por nocaute (uma contra Jerry Quarry, em outubro de 1970, e outra contra Oscar Bonavena, em dezembro do mesmo ano) e perdeu uma em março do ano seguinte, em uma luta pelo título contra o campeão dos pesos pesados, Joe Frazier.
Por sua vez, os 2,16 metros de altura de Wilt Chamberlain representavam uma vantagem sobre os 1,91 metros de Ali. Embora Chamberlain não fosse um boxeador, ele era um atleta de alto nível e contratou Cus D’Amato, um dos melhores treinadores de boxe da história, para capacitá-lo.

Segundo D’Amato, a estratégia ideal para Wilt Chamberlain seria usar um jab longo para manter Ali distante e impedi-lo de acertar golpes contundentes, visando uma vitória técnica por contagem de golpes. Isso indica que havia um receio real de que, caso Ali conseguisse se aproximar do atleta do basquete, um nocaute seria quase certo.
“De fato, a única vantagem do Wilt Chamberlain era a envergadura. Ele teria que desenvolver muita coisa e, levando as limitações dos treinamentos da época e a diferença de preparo do Wilt Chamberlain para o Ali, a chance do atleta de basquete ganhar seria quase nula”, defende o preparador físico de lutadores, Luã Costa, que conversou com a reportagem.
Ele avalia que Chamberlain já tinha uma boa capacidade de fazer esforço cardiorrespiratório por um período de tempo considerável, mas essa característica não seria exatamente uma vantagem em relação a Ali, pois o boxeador também conseguia.
“O que Wilt Chamberlain não tinha, e precisaria desenvolver, seria a capacidade de gasto de energia intermitente, na qual você faz um esforço bem grande rapidamente, na hora dos socos, esquivas e defesas, intercalado por um momento mais controlado de estudo do adversário e movimentação pelo ringue”, acrescenta ele.
Na época, isso era demorado de desenvolver porque os treinamentos focavam em longas corridas, no estilo de maratonista, e técnicas de boxe. “Hoje, temos métodos que intercalam exercícios intensos com recuperações, como o HIIT [High-Intensity Interval Training]. Quando implementamos com sabedoria na preparação física de um lutador, podemos encurtar o período da sua capacitação”, diz Costa.
Outra questão é a força.
“Wilt Chamberlain levantava pesos, mas se inspirava no modelo da época, que era o dos bodybuilders. É um treino bom para algumas coisas, mas não para a luta, porque não considera que você vai precisar fazer um esforço durante um longo período de tempo e nem usar a força com rapidez, conseguindo dar golpes fortes, precisos, mas ágeis”, acrescenta Costa.
Por isso, a maior chance de Chamberlain reside em um cenário hipotético e anacrônico, no qual ele treinasse usando os métodos de hoje em dia para se capacitar contra um Ali que usasse os métodos antigos de treino.
“Mesmo assim, eu calculo que ele precisaria de, no mínimo, um ano e meio a dois anos para ter alguma chance contra Ali”, infere Costa. “Ele evoluiria rápido nos primeiros seis meses no quesito capacitação física, mas depois começaria o verdadeiro trabalho para a luta, além de muito treino técnico”.
“O treino ideal para Wilt Chamberlain contaria com cárdio através de HIIT, corridas explosivas ou aerobike, junto de um treinamento de pesos voltado para o desenvolvimento de força prolongada e com capacidade de explosão nos braços e pernas e, claro, um bom período de treinamento de técnica para o boxe: movimentação de pés, movimentação de tronco para esquiva e encaixe dos socos e a própria técnica dos golpes”, conclui ele.
Por que o duelo não ocorreu?
Wilt Chamberlain & Muhammed Ali were about to scrap pic.twitter.com/g9JLoJqiaW
— B (@brycemcdon_) August 29, 2025
Apesar das grandes expectativas para a luta, o duelo nunca ocorreu. E há várias possíveis razões para isso.
Uma delas é a pressão, por promotores do basquete, para que Chamberlain não fosse adiante com a disputa. Jack Kent Cooke, então dono dos Lakers, time para qual Wilt jogava na época, chegou a oferecer um contrato recorde para o atleta desde que ele concordasse em abandonar o que classificou como “essa bobagem do boxe”.
Na época, Cooke também defendeu que
“Wilt pode destruir ou prejudicar suas habilidades excepcionais no basquete, em detrimento de seus companheiros de equipe dos Lakers, do próprio Wilt e, claro, de todo o basquete“.
Já um recorte de jornal de 1971 do New York Times consultado pela reportagem de Warriors Brasil culpa Wilt Chamberlain pelo cancelamento da luta, dizendo que o valor exigido pelo atleta era alto demais.
“As negociações para uma luta de boxe na categoria peso-pesado, marcada para 26 de julho no Astrodome, entre Muhammad Ali e Wilt Chamberlain, astro do basquete profissional, foram interrompidas hoje quando Chamberlain exigiu uma garantia isenta de impostos de US$ 500.000”, diz a matéria.
A mesma matéria diz que, embora a luta fosse vista como um espetáculo, a ideia do duelo atraiu críticas de diversos setores.
“Isso transformou o boxe em uma piada”, disse Bill Brennan, presidente da Associação Mundial de Boxe.
“Nova York não aprovaria uma luta entre All e Wilt Chamberlain”, disse Edwin B. Dooley, presidente da Comissão Atlética do Estado de Nova York.
“Não sei se isso transforma o boxe ou o basquete em piada“, disse Harry Markson, responsável pelas atividades de boxe no Madison Square Garden.
Hoje em dia, a questão ainda é um dilema e divide opiniões. Thomas Hauser, autor do livro Muhammad Ali: His Life and Times, que conversou com a reportagem de Warriors Brasil, é uma pessoa com opiniões fortes sobre o caso.
“Wilt Chamberlain considerou seriamente lutar contra Ali. Mas, no fim, optou por não fazê-lo. Acho que ele entendeu que perderia feio. Ele tinha dignidade demais para se humilhar dessa maneira. Não precisava do dinheiro. E não queria apanhar.”, defendeu ele, por e-mail.
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